Federação X Ceará
por Alfredo Sampaio*

Em 1944 estourou uma grave crise no futebol cearense. O Ceará, sentindo-se prejudicado com algumas medidas tomadas pela F.C.D., em sinal de rebeldia, resolveu licenciar-se, afastando-se das disputas já no final do 2º turno.

Dizem alguns alvinegros que o então Diretor de Esportes, Capitão João de Moura Dias, era torcedor do Maguary, campeão de 1943, e que marchava para o bicampeonato. Achava o Ceará que o Maguary era o beneficiado em tudo.

Escudo do Ceará utilizado de 1915 a 1954.

Escudo do Ceará utilizado de 1915 a 1954.

P mais ferrenho inimigo da Federação era o saudoso desportista Edelberto Goés Ferreira, proprietário do famoso Café Globo, que representava o seu clube junto à mentora.

A diretoria alvinegra não atendeu aos apelos de ninguém e até a crônica esportiva procurou resolver o impasse, mas tudo em vão. O quadro de profissionais foi dissolvido e seus melhores craques do momento, Hermenegildo e Mitotônio, foram emprestados ao Náutico Capibaribe, em 1945.

A crise engrossou mais no final do ano, quando a F.C.D. resolveu suspender o Ceará por um ano, considerando que aquela lincença abrupta, em meio ao certame de 44, fora um gesto de indisciplina.

Assim o clube de Porangabussu ficou fora também do campeonato de 45, desta vez suspenso. Sem o Ceará, dois anos fora das competições oficiais, o nosso futebol entrou em crise, as rendas caíram, pois se increveram para o certame de 45, Maguary, Fortaleza, Ferroviário e dois clubes pequenos: Luso e Flamengo. Além disto, o Maguary já dava sinais de declínio, pois já entrou com um quadro mesclado, tendo dispensado seus principais profissionais, como Louro, Pedro, Galego e Ubaldo. É que o “Clube dos Príncipes”, a partir daquele ano, deu prioridade à construção de sua sede, na Rua Barão do Rio Branco.

Além do mais, parte dos jogos de 1945 era realizado no Estádio Américo Picanço, na ainda “longínqua” Aldeota, e de propriedade do América, pois o PV estava em obras, só reabrindo seus portões para as finais do certame que acabou nas mãos do Ferroviário.

Finalmente, oficializando-se a licença do Maguary no fim de 1945, o Ceará resolveu voltar ao seio da Federação para disputar o nosso campeonato a partir de 1946 e voltou a reinar a paz neste pequeno futebol, cheio de crises e mazelas.

Diga-se, de passagem, que durante a suspensão, o Ceará quando fazia algum amistoso em seu campo, usava o nome de Dragão de Parangabussu.

Comentários (por Marcelo Bloc):
- Clube cearense sentindo-se perseguido pela federação? Até hoje é assim;
- Também em 1944, o Penarol abandonou a competição faltando apenas um jogo para o final do primeiro turno, sendo suspenso por 1 ano;
- O bicampeonato dos cintanegrinos (como eram chamados os torcedores do Maguary, devido a grossa listra preta horizontal no uniforme) foi facilitado com a saída do Ceará, clube que estava mais próximo da equipe na classificação. O Fortaleza então, acabou por herdar o vice;
- O título do Maguary foi invicto e arrastão em 44, metendo 8×0 no Penarol, 6×1 no Fortaleza, 7×1 no Ferroviário e 6×4 no Ceará. O fechamento do seu quadro de futebol, ao final de 1945, foi um duro golpe para o futebol cearense;
- O campeonato cearense de 1945 foi o único a não contar com a participação do Ceará Sporting Club.

* Texto retirado da obra “Futebol Cearense, retalhos históricos” (2007), de Alfredo Sampaio. A série “Futebol (Cearense) de Antigamente” é publicada todos os domingos.